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Burning Man : l'utopie éphémère du désert du Nevada

Burning Man: a utopia efémera do deserto do Nevada

leitura - palavras

Sábado à noite, 20h00, Black Rock Desert, Nevada. Oitenta mil pessoas formam um imenso círculo em torno de uma silhueta de madeira com vinte e quatro metros de altura. Os carros artísticos respiram fogo. Os sistemas de som vibram. A poeira alcalina adere à pele. Então o Homem pegou fogo. Em poucos minutos, uma escultura que está a ser feita há um ano pega fogo. Não é um festival. Não é um concerto. É o Burning Man, e nenhuma festa techno, rave ou armazém no mundo se parece com isto. Se é apaixonado pela cultura underground, esta página vai dizer-lhe exatamente o que se passa lá.

As coisas essenciais a recordar
  • Burning Man não é um festival de música, mas uma cidade temporária de 80.000 pessoas construída todos os anos no deserto de Black Rock, no Nevada.
  • O evento existe desde 1986 (Baker Beach, São Francisco) e opera com base em 10 princípios, incluindo presentes, auto-suficiência radical e não deixar rasto.
  • O bilhete normal custa 575 dólares. A procura excede em muito a oferta: inscrições em março, lotaria em abril.
  • O deserto é hostil: futebol, tempestades de poeira, 5°C à noite, 40°C durante o dia. Tudo é trazido, nada é comprado no local.
  • Incidente importante: em setembro de 2023, uma chuva sem precedentes bloqueou 70.000 queimadores durante 72 horas em lama alcalina.

O que é realmente o Burning Man?

O Burning Man não é um festival de música. Não encontrará uma programação estampada em cartazes, nem palcos principais com Charlotte de Witte ou Amelie Lens como cabeças de cartaz. Nada de Coachella, nada de Tomorrowland. Burning Man é uma cidade temporária construída todos os verões no deserto de Black Rock, no noroeste do Nevada, a 40°45' de latitude norte. Durante nove dias, Black Rock City torna-se a quinta maior cidade do Nevada. Para lá convergem oitenta mil queimadores com as suas tendas, os seus carros de arte, os seus acampamentos temáticos, os seus trajes improváveis.

O bilhete normal custa 575 dólares, o passe para veículo custa mais 150 dólares. E com esse dinheiro não recebe cerveja, nem barraca de comida, nem loja. O evento funciona com base no princípio de presentear e rejeita totalmente o comércio. Apenas café e gelado são vendidos no Center Camp. Tudo o resto traz, oferece ou troca. Black Rock City não é um produto. É uma experiência radical onde cada participante co-cria a cidade.

A história do Burning Man, de Baker Beach ao deserto

A história começa em 1986, em Baker Beach, São Francisco. Larry Harvey, carpinteiro e poeta, construiu um manequim de madeira com quase dois metros de altura com o seu amigo Jerry James. Queimam-no na praia, rodeados por cerca de vinte amigos. Nenhum discurso, nenhum conceito exibido. Apenas um ritual espontâneo no solstício de verão.

O evento repete-se todos os anos. Em 1988, o Homem aumentou para doze metros. Em 1990, a polícia de São Francisco proibiu os incêndios em Baker Beach. A Cacophony Society, um coletivo de artistas contraculturais, sugere então a migração para o deserto de Black Rock. Esta primeira edição no deserto reúne noventa pessoas. Seis anos depois, em 1996, o evento já contava com oito mil participantes. Também um ano negro: um participante morreu atropelado por um carro, o que obrigou a organização a estruturar regras de trânsito e a profissionalizar a logística.

Em 2013, o Burning Man tornou-se oficialmente uma organização sem fins lucrativos, o Burning Man Project, com sede em São Francisco. O objetivo declarado: preservar o espírito original face à comercialização desenfreada e divulgar a cultura em todo o mundo através de eventos regionais. Os números são os seguintes: 25 mil queimadores em 2005, 50 mil em 2011, 80 mil hoje.

Os 10 princípios que regem a comunidade

Em 2004, Larry Harvey formalizou dez princípios que servem de constituição da Black Rock City. Aqui estão eles, por ordem oficial, com o que realmente significa na praia.

Inclusão Radical: ninguém é excluído. Sem filtro social, cultural, religioso. Conheces bilionários, punks sem-abrigo e famílias com crianças no mesmo acampamento.

Presentes: oferecemos sem esperar retorno. Sem troca, sem dívida. Um acampamento oferece cocktails, outro massagens, outro poemas personalizados. Chega sem nada, sai com recordações.

Desmercantilização: sem marca, sem publicidade, sem transação comercial. Até mesmo um logótipo visível é proibido. As roupas patrocinadas são carimbadas com fita preta.

Autossuficiência Radical: traz tudo o que precisa. Água, comida, abrigo, medicamentos. Ninguém virá salvá-lo se se esquecer do protetor solar.

Autoexpressão Radical: expressa quem é sem pedir autorização. Nudez, figurinos, maquilhagem, esculturas, danças, performances. Liberdade total, desde que respeite o consentimento dos outros.

Esforço Comunitário: tudo se baseia na cooperação. O seu acampamento, o seu carro artístico, o seu trabalho. Nada se faz sozinho.

Responsabilidade Cívica: respeita as leis locais, cuida da segurança do seu acampamento, reporta incidentes.

Não deixe rasto: não deixa rasto. Até uma ponta de cigarro, um pedaço de fita adesiva, uma palhinha. Desde 2019 que o glitter está proibido por ser considerado microplástico. A organização mede o MOOP (Matter Out Of Place) zona a zona após o evento. O seu acampamento está anotado. Uma má pontuação pode banir o seu acampamento no ano seguinte.

Participação: não há espectadores. Toda a gente está fazendo alguma coisa. Monta-se um acampamento, oferece-se um serviço, cria-se uma obra.

Imediatismo: viva o momento, sem filtros. Sem rede, sem redes sociais, sem distrações. Está aqui agora, na poeira.

Como está a correr a semana em Black Rock City?

Aqui está o horário típico de uma semana no Burning Man:

DiaO que está a acontecerEnergia DominanteDomingo (meia-noite)Portão aberto, chegada dos primeiros queimadoresInstalação, entusiasmoSegunda a Sexta-feiraExploração de acampamentos, arte, raves clandestinas, sistemas de somCidade efémera vivaSábado à noiteQueimardu Man (24 m), catarse coletivaFesta, uivos, fogoDomingo à noiteQueima do Templo, cartas aos falecidosSilêncio, emoção, lutoSegunda-feiraÊxodo, limpeza MOOPDesmontagem, vazio

Segunda a sexta-feira: instalação e obras de arte

De segunda a sexta-feira, Black Rock City vive como uma cidade efémera. Andámos de bicicleta pela praia (tudo é plano durante quilómetros), descobrimos instalações monumentais, frequentámos raves clandestinas, dormimos pouco. Os DJ de techno underground (Seth Troxler, Paco Osuna, Dubfire e Carl Cox ficaram incógnitos) tocam em sistemas de som montados em camiões.

Sábado à noite: Burn du Man

Sábado ao anoitecer, ritual central. Oitenta mil pessoas convergem para o Homem, uma escultura de madeira de vinte e quatro metros plantada no centro da praia. Os carros artísticos cospem chamas. Os pirotécnicos iluminam a estrutura. Em vinte minutos, o Homem desabou nas chamas. É barulhento, é coletivo, é catártico. A multidão grita, dança, chora, abraça.

Domingo: o Templo e a purga emocional

Na noite de domingo, tudo muda. O Templo, construído todos os anos por um artista diferente (David Best é o seu mestre histórico desde 2000), é queimado. Ao contrário do Homem, a queima do Templo ocorre em total silêncio. Os queimadores deixavam ali cartas, fotos, objetos para os defuntos, para os seus vícios, para as suas tristezas. Tudo o que ouve é o ranger da madeira. Muitos choram. É a época mais entusiasmante do ano para a comunidade.

Arte no Burning Man: esculturas, veículos mutantes e instalações

A arte é a espinha dorsal do Burning Man. A organização distribui aproximadamente 1,2 milhões de dólares por ano através dos Burning Man Arts Grants para financiar obras monumentais. Algumas peças demoram um ano a serem construídas. O Templo da Transição de 2011, por exemplo, tinha trinta e três metros.

Os carros artísticos, oficialmente chamados de veículos mutantes, são veículos radicalmente transformados. Uns parecem galeões piratas, outros peixes gigantes, outros cospem chamas ao ritmo da música. Os mais ambiciosos custaram aos seus proprietários mais de 100 mil dólares em equipamento. David Best, arquiteto e artista, continua a ser uma figura de culto: as suas hastes de renda de madeira tornaram-se o emblema da noite de domingo.

Como participar no Burning Man? O guia prático

Bilhetes: lotaria, preços, disponibilidade

Os bilhetes não são vendidos gratuitamente. As inscrições abrem em março, o sorteio realiza-se em abril. O preço padrão é de 575 dólares, o passe do veículo custa 150 dólares. Há também bilhetes de baixo rendimento (225 dólares) para queimadores com rendimentos modestos, e bilhetes FOMO a 2.750 dólares que financiam bolsas de arte. A procura excede largamente a oferta: todos os anos, várias centenas de milhares de candidaturas para 80.000 lugares.

Acampamentos: plug and play vs. acampamentos temáticos

Tem duas opções. Os parques de campismo plug and play vendem um pacote com tudo incluído (barraca, cama, duche, refeições, por vezes até fantasia) por entre 3.000 e 25.000 dólares por semana. Prático, mas mal visto pela comunidade histórica que considera que trai o espírito de auto-suficiência. A opção respeitada consiste em aderir a um acampamento temático, montado por uma comunidade de queimadores regulares, onde todos contribuem (cozinha, oferta de bar, performance). Paga a sua parte (200 a 600 dólares em geral) e participa no mutirão.

Preparação do deserto: pó, água, calor

A preparação física conta tanto como o bilhete. Deve fornecer cinco litros de água por dia por pessoa (ou seja, 45 litros durante nove dias). óculos de velocidade são essenciais para sobreviver a tempestades de poeira. Uma máscara contra o pó (bandana ou respirador) protege as vias respiratórias. Quanto aos looks, a playa destrói tudo: traga roupa de festival resistente ou roupa techno para homem que está pronta para sacrificar. acessórios para festivais, como pochetes, arneses e óculos fluorescentes, são essenciais para viajar com pouca bagagem e permanecer visível à noite.

Desafios e segurança do deserto

O deserto de Black Rock é hostil. A playa é um lago alcalino e seco: o pó que a compõe queima a pele em contacto com a humidade. É o famoso pé de playa, uma espécie de queimadura química que ataca os pés molhados com sandálias abertas. As tempestades de poeira (apagões) podem privá-lo de visibilidade durante várias horas. A temperatura oscila entre os 5°C à noite e os 40°C durante o dia.

O incidente mais notável continua a ser o de Setembro de 2023. Uma chuva torrencial sem precedentes transformou a praia numa armadilha de lama pegajosa. Cerca de 70 mil queimadores estiveram retidos durante 72 horas, sem possibilidade de abandonar o local. As autoridades fecharam estradas de acesso. As reservas de água foram mantidas graças ao princípio radical da autossuficiência. O evento não foi cancelado, mas deixou a sua marca na comunidade, provando que a extrema autonomia exigida aos participantes não é um slogan.

O espírito do Burning Man na cultura techno global

O Burning Man espalhou-se. Em lado algum, em Espanha, existe desde 2004 e aplica os dez princípios à escala europeia. Borderland, na Dinamarca, faz a mesma coisa desde 2014. Midburn, em Israel, reúne dez mil queimadores todos os anos. Em França, as Festas de Descompressão organizadas em Paris e Marselha reúnem a comunidade francófona fora de época.

Para si, um raver que fale francês, o que o Burning Man pode trazer resume-se a três pontos. Primeiro o ethos da participação: deixar de consumir a festa como produto e começar a cocriar os espaços por onde se passa. Depois o cuidado com o look: as suas próximas noites no Rex Club, no La Station ou num armazém merecem mais do que uma t-shirt preta básica. Pense em fantasia, pense em identidade, pense em luz. Por fim a pochete de festival e os acessórios práticos, porque aguentar a noite toda sem perder os pertences é a arte básica de queimar.

Da próxima vez que estiver a planear a sua roupa para o festival, pense no Burning Man. Não necessariamente para lá ir, mas para perceber que um evento underground é melhor do que uma playlist e um dress code. É uma comunidade, um ritual, uma identidade que se constrói.


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